Quando me chamaram de "Perninha" – e Deus me deu uma história.
- Escritora Carols
- 27 de abr. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 28 de abr. de 2025

Nem sempre é fácil explicar por que alguns anos da nossa vida se tornam mais difíceis que outros.Para mim, tudo começou naqueles primeiros dias de ensino médio, quando, pela primeira vez, me vi em uma sala de aula sozinha. Sem minha irmã gêmea ao meu lado, eu sentia que faltava uma parte de mim — como se tivesse esquecido uma mão, uma parte do coração, em outro andar da escola.
Minha sala era no primeiro andar, mas a sensação era de estar trancada em outro mundo. Apesar de todos estarem ao meu redor, eu era invisível. Os colegas não conversavam comigo — e, como um botão de flor fechado antes da primavera, eu também não conseguia conversar com eles. Minha estratégia para sobreviver foi ficar em silêncio. Quietinha no meu canto.

Os meus melhores momentos vinham no recreio, onde eu corria (de forma bem lenta e meio torta) para a quadra para encontrar minha irmã e suas amigas. Ali, eu era outra. Ali, eu respirava.
Antes, eu passava meu tempo livre na biblioteca, entre livros e sonhos. Mas naquele ano, embora não passasse mais horas escondida entre as estantes, eu nunca estava sem um livro na mochila — era o meu escudo invisível.
Uma memória ainda pulsa forte em mim: um trabalho em grupo em que me senti como um peixinho fora d'água, tentando nadar em terra seca. Me senti ignorada, desvalorizada, como se minha voz tivesse desaparecido. Chorei tanto depois daquela apresentação… chorava de soluçar e isso preocupou tanto minha irmã, como a moça que acompanhava pessoas com deficiência na escola, a Dilma.
Foi então que decidi mudar para a sala da minha irmã.E, por um tempo, o cinza virou cor de novo.Fiz amigos.Apresentei trabalhos sorrindo.Cantei.Ri.Preparei surpresas para minhas amigas. Reaprendi o gosto de ser eu mesma.

Até que o terceiro ano chegou — e com ele, o peso do bullying (e capacitismo).
Fiz apresentações para toda a escola. Uma delas, uma música num banco alto do laboratório de química. Outra, uma história linda de uma atleta que competiu nas Olimpíadas e Paralimpíadas. Cantei e contei sem sair do tom, focada demais no que fazia para perceber os risos escondidos na arquibancada.
Eu pensei que era coisa da minha cabeça.
Na saída, notei olhares diferentes. Risadinhas abafadas. Mas me recusei a acreditar. Fui para casa feliz — minha turma tinha ganhado a gincana, afinal!
Na segunda-feira, o coordenador me parou no caminho para o bebedouro e perguntou se eu estava bem. Eu estava...Até começar a entender que algo tinha acontecido.
Depois de muita insistência, minhas amigas e minha irmã revelaram: Durante minhas apresentações, um grupo de alunos havia me dado um apelido cruel — “perninha” — e, da arquibancada, imitaram a forma como eu andava enquanto riam alto. Foi por isso que meu time gritava tão alto. Eles estavam tentando abafar a crueldade.
Naquele dia, enquanto esperava minha mãe me buscar, chorei até faltar o ar. Meu professor de geografia chorou comigo.
Quando contei aos meus pais, fingi que não me importava. Mas, por dentro, era como se tivesse voltado a ser aquela menina solitária do primeiro andar.
Minha mãe foi à escola. O grupo recebeu zero na gincana. Mas nenhum número apagaria a dor que eu carregava. Escrevi cartas para quem tivesse me ferido. Cartas que nunca enviei, tentando perdoar sem saber para quem.
Comecei a esconder mais minhas cicatrizes. Tentei mudar a forma como andava. Tentei mudar quem eu era. Mas, por mais que tentasse, eu continuava sendo eu.
E foi só um ano depois, já com 18 anos, que tive um encontro verdadeiro com Deus — no meu quarto, às 5h da manhã. Foi ali, que aceitei Jesus como meu Salvador e Criador.
Aos poucos, Deus foi costurando as partes rasgadas do meu coração. Hoje, ainda sinto dor se vejo alguém me imitando. Mas também aprendi a sorrir. E fico muito mais feliz quando ouço uma criança dizer:— “Você anda como uma bailarina!”

Essa história, a minha história, é uma das sementes que germinaram no meu novo livro, Criação Assombrosa. Um livro que fala de vulnerabilidade, de esperança, e de um amor que transforma a dor em arte.
O lançamento será na FEFICC, em julho.E eu mal posso esperar para dividir essa nova dança com vocês.



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