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CENA EXTRA - Capítulo. 27: Quer brincar comigo? (a parte do açaí)

  • Foto do escritor: Escritora Carols
    Escritora Carols
  • 7 de jan.
  • 4 min de leitura

Cena animada do filme A Dama e o Vagabundo. No centro, um cachorro cinza de porte médio está sentado, com a língua para fora, olhando para uma cadela marrom de orelhas longas que está deitada no chão. Ao lado dela, há um filhote pequeno encostado em seu corpo. O ambiente parece ser uma sala decorada para o Natal, com uma árvore ao fundo e brinquedos espalhados pelo chão. No canto esquerdo da imagem, há um texto em letras grandes rosa e brancas que diz: “CENA EXTRA — quer brincar comigo? (a parte do açaí)”. Na parte inferior da imagem, uma grande área escura em forma de silhueta cobre parcialmente os personagens e o chão, como se estivesse ocultando parte da cena.

Henrique sai apressado da casa do nosso paisagista assim que o telefone toca. Até tentei olhar o visor, mas não consegui decifrar quem ou o que seria “Borboleta”; então só ignorei e escolhi dividir minha atenção com algo mais divertido: o pote de açaí que Juan colocou na mesa, junto com um pegador de sorvete.

Bato palminhas.


“Gosta mesmo de açaí, hein?”, ouço Luiz rir divertido e olho-o sorridente. “Isso me faz lembrar que alguém também gosta. Já volto, não aprontem!”


Antes que eu possa brincar sobre a pessoa em questão, que também gostava, Juan volta à mesa com muitas outras vasilhas que me fazem franzir a testa fortemente em negação.

“O que…”, começo, mas ele sorri, organizando cada coisa um ao lado do outro com uma colher em cima de cada potinho.


“Leite em pó, leite condensado, frutinhas: banana, maçã, uva… como se diz “Frutilla” mesmo?” Ele para por um segundo, abrindo a tal frutilla, me mostrando a fruta vermelha com pontinhos pretos.


“Morango”


Ele sorri de lado, fazendo um ‘tsc’ com a língua. “Sabia que podia contar com meu dicionário ambulante!”


Forço uma risada forçada e ele ri sem esforço.


“Por que tanta coisa, hein?”, pergunto. “Você não vai colocar tudo isso no seu açaí, né, Juan?” Ele me olha como se tivesse sido pego no flagra. “Ai, meu Deus, Juan! Vai ficar uma gororoba! Nem vai ser mais açaí!”


“Ei, sem julgamentos!” Ele reclama, entregando-me o pote de sobremesa de alumínio junto com uma colher pequena. “Faz o seu e eu faço o meu!”


Enquanto o menino que não tinha mais dreads demorava mais tempo na sua montagem do que parecia ser algo nada apetitoso, me sentei no sofá e já fui procurar o filme da vez: A Dama e o Vagabundo.


Meu irmão tinha razão… a história realmente era um pouco triste, mas bem romântica e fofa. Eu amava ver os cachorrinhos se apaixonando, mesmo sendo tão diferentes. Se fizesse uma versão brasileira, com certeza teria que ser um caramelo apaixonado por uma samoieda. Realidades diferentes, mas desejos iguais.


Liberdade e diversão, mesmo que, às vezes, o significado dessas duas palavras seja ter uma casa e uma família em quatro paredes, e não necessariamente viver viajando o mundo adoidado. Tem algo recompensador em formar uma família.


Devia ser pelo fato de já saber a história de cor. Ou pelo fato de tomar dois potinhos de açaí de uma vez, ou de estar super cansada da viagem emocionante ao Catar, mas aconteceu sem que eu conseguisse evitar.


Eu dormi.

Pior (ou melhor) no ombro de Juan.


E como eu sabia disso se eu estava dormindo? Simples. Estou sendo acordada nesse exato momento, mas estou evitando o ato de abrir os olhos.


O cutuque leve no meu ombro e o sussurrar com sotaque de Juan com um: “Ju… Julieta?” eram a comprovação disso.


Meu coração bate forte no meu peito, meio desesperado, e fico com dúvida se respirar fundo agora seria uma boa ideia ou não, porque não quero mudar do nada a forma como eu estava respirando enquanto dormia.


“Sei que está acordada…” A voz dele sai risonha e eu levanto a cabeça rapidamente, com o olho arregalado, vendo os créditos finais do filme. “Sabia que você ronca?”


O olho mais desesperada e ele ri alto, jogando a cabeça pra trás como a criança que ele era e eu faço uma cara feia acertando um tapa leve no seu joelho. Minhas bochechas estavam ficando douradas; eu tenho certeza absoluta.


“Você perdeu a melhor parte; quer que eu volte?” Ele já estava de volta ao seu sorriso usual e eu, com os braços cruzados com minhas costas bem eretas no encosto do sofá.


“Tá tudo…” Minha boca abre sem minha permissão e eu ouço uma risadinha contida. “Ai, Juan, para!”


“Não fiz nada! Tô super quietinho e sendo educado”, seus braços levantaram e o sorriso diminuiu um pouco, como se estivesse se preparando para entrar em um assunto sério.


Seus braços são cruzados e, de lado, fica me olhando.


“Quer perguntar alguma coisa?” Fico de lado para ele.


“Você está bem?” Sua sobrancelha grossa levanta e a minha se abaixa meio tristonha. “Não precisa falar se não quiser… você só parece claramente cansada.”


Suspiro alto.


Esse tinha se tornado um dos meus melhores dias de minha vida. Era curioso saber que eu podia ver tantos passarem pela minha mente agora.


Era bom ter momentos de simplicidade. Acredito que, depois de toda essa bagunça e correria, misturada com grandes emoções — tanto as felizes, como as das meninas fofocando em um quarto de hotel internacionalmente; visitando nossos jogadores no centro de treinamento e fazendo desafios de embaixadinha; explorando os lugares mais belos e paradisíacos do país, com fotos e vídeos por todo lado — a tristeza logo me visitou e decidiu permanecer por mais dias do que eu gostaria.


A dor e a mágoa em perceber que Dante tinha razão em dizer que todos mentiram para mim acertaram o mais profundo do meu coração, rasgando um pouco do que eu pensava ser duro na queda. A confiança que eu tinha no Imperador, ou melhor, em meu pai.

Ainda não consigo imaginar.


Será que um dia conseguirei entender a sua fala?


“Prefiro que me odeie a odiar o que aconteceu há 10 anos.”


Como odiá-lo vai favorecer a morte de Mainha? A memória era perigosa… ou seria protetora?


Era tanta coisa para pensar.


“Descobri algumas coisas…, mas ainda não cheguei a uma grande conclusão”, revelo. “Mas sabia que queria vir brincar com você. Lembrei da caixa de brinquedos e só...só vim aqui”

Ele concorda com a cabeça.


“Quer dançar um pouco também?”, ele pergunta com um sorriso secreto que ele só abria para mim. “Sabe, quem dança seus males espanta”


Tento segurar um sorriso.


“Só se for Estúpido Cupido”


Ele se levanta rapidamente do sofá, todo animado, como se já estivesse dançando, pegando o controle e entrando no aplicativo de música da televisão.

“Solta o som DJ!”

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Feliz dia do leitor! <3

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